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terça-feira, 14 de maio de 2019

Wagner Gonzalez em Conversa de pista

Wagner Gonzalez

E agora, Ferrari?

Enquanto os flechas de prata continuam acertando o alvo, a Scuderia segue errando.


A temporada 2019 da F-1 ganhou mais um capítulo de obviedade no último fim de semana quando os pilotos da Mercedes conquistaram a quinta dobradinha consecutiva nas cinco etapas disputadas até agora. Nem mesmo um motor melhorado e alterações aerodinâmicas ajudaram a Scuderia Ferrari a andar mais perto dos carro anglo-alemães; pelo contrário, ao lado do vencedor Lewis
Hamilton e do segundo colocado Valtteri Bottas, quem completou o pódio foi o holandês Max Verstappen, com um Red Bull Honda. Hoje (terça) e amanhã as dez equipes que disputam o Mundial da categoria fazem dois dias de testes no circuito de Barcelona, sendo que Ferrari e Racing Point terão uma agenda extra: elas foram escaladas para testar pneus que poderão ser usados na próxima temporada. Pietro Fittipaldi e Sérgio Sette Câmera participam desses treinos.

Nenhuma equipe da F-1 é tão cobrada por resultados quanto a Scuderia Ferrari, a única que participou de todas as temporadas da categoria desde a criação do Campeonato Mundial em 1950. Não há controvérsias de que a Scuderia de Maranello conta com um dos dois maiores orçamentos do grid e que sua importância política sempre possibilita favores e privilégios na definição de regulamentos. Desse ponto de vista é que os resultados são cobrados até por quem não é fã do time.
Brabham, Ligier, Lotus, McLaren e Williams, para mencionar apenas nomes mais contemporâneos, tiveram seus momentos de glória e contaram com torcidas de peso, mas nenhuma jamais chegou aos pés dos tifosi, os ferraristas fanáticos que há tempos deixaram de ser apenas italianos. Hoje essa nação de espalha mundo afora, da paulista Andradina até o africano Zimbábue. Se tal carga de admiradores tem efeito apenas emocional, dentro de casa o clima é muito mais frenético e, porque não dizer, perigoso. Em que pese a importância da marca, ou talvez por isso mesmo, em sua estrutura de funcionamento sobram batalhas que consagram e destroem heróis com alta frequência e na rapidez digna dos tempos de www.

O segundo semestre do ano passado deixou claro que a continuidade de Maurício Arrivabene no comando da Ferrari estava mais do ameaçada. Homem de marketing que conquistou importante espaço na F-1 e fez a equipe disputar com chances os títulos de Pilotos e Construtores durante boa parte de várias temporadas. Sabiamente delegou poderes na parte técnica, área que extrapola sua formação acadêmica. O andar da carruagem, porém, não foi tão tranquilo quanto ele poderia esperar e em um jogo de xadrez com movimentos notadamente enviesados, o reino de Arrivabene foi corroído pela atuação do suíço Mattia Binotto, que vinha galgando posições de forma mais eficiente do que os resultados que ele apresenta até o momento.

Após cinco etapas o melhor resultado da Ferrari em 2019 ainda não passou do terceiro lugar e o resumo da ópera é predominado por árias com enredo que mesclam a tirania e a tragédia. A tirania é a postura de privilegiar o primeiro piloto da equipe mesmo quando o recém-chegado mostra chances aparentemente melhores de salvar a honra da equipe com atuações mais espetaculares. A narrativa trágica advém de muitas decisões estratégicas que brindam derrotas em uma guerra nada santa. Terminado o GP da Espanha Binotto admitiu que “o carro tem erros de projeto” e que “nossa equipe é jovem”. Conclusões emitidas por quem está em Maranello desde 1993 e hoje chefia a equipe que tem mais GPs disputados.
O resultado completo do GP da Espanha e a tabela de pontos do campeonato você encontra clicando aqui.

Brasileiros de volta à F-1
Dois brasileiros deverão estar em ação a pista espanhola: Pietro Fittipaldi e Sérgio Sette Câmera. Fittipaldi vai acelerar um carro da equipe Haas, onde atua como piloto de testes e desenvolvimento; as atuações irregulares dos pilotos oficiais da equipe – o franco suíço Romain Grosjean e o dinamarquês Kevin Magnussen poderão auxiliar na promoção do neto de Emerson, que para garantir a superlicença necessária para disputar a F-1 acertou participação na série DTM com um carro da Audi. Por seu lado, o mineiro Sette Câmera está escalado, segundo sua assessoria, para ter sua primeira experiência de pista com um carro da categoria, no caso o McLaren McL 34-Renault.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Wagner Gonzalez em Conversa de pista

Wagner Gonzalez
F-1 revela o futuro

Impossível não analisar o recente GP do Bahrein (Foto de abertura, Ferrari) sem enxergar que o futuro da F-1 já não é tão desconhecido assim, cortesia de Charles Leclerc, Lando Norris e Alex Albon, para citar apenas uma categoria de profissionais. Sem esquecer que estamos apenas na segunda etapa de uma série de 21 corridas, nota-se que a McLaren mostra potencial para renascer das cinzas após anos marcados por resultados decepcionantes e alguns nomes consagrados deixam claro que estão usando o cheque especial no que diz respeito ao que venderam e ao que andam entregando.

Historicamente a F-1 inicia novos ciclos, ora com o domínio de uma equipe, determinada tecnologia ou com o surgimento de pilotos de ponta, como aconteceu nos anos 1980. Naquela época havia uma safra de novos valores que garantiu por bom tempo a diversidade de equipes disputando a ponta; a clássica foto de Ayrton Senna com o macacão da Lotus, Alain Prost com o da McLaren e Nelson Piquet e Nigel Mansell com as cores da Williams, sentados no muro dos boxes do autódromo de Estoril ilustra bem esse capítulo da história. Gradativamente eles foram substituídos por Fernando Alonso, Michael Schumacher, Mika Häkkinen e, mais recentemente, por Lewis Hamilton e Sebastian Vettel, mas jamais viu-se uma constelação tão grande e variada quanto naqueles dias.

Verdade que vários pilotos tentaram, mas não deixaram marcas tão fortes quanto Mansell, Piquet, Prost e Senna. Nem mesmo campeões como Kimi Räikkönen e Jenson Button consolidaram seus títulos com a grife de seres fora de série: foram, isto sim, eficientes à sua maneira. Button sequer é mencionado como um dos “top ten” apesar das seis vitórias em 17 etapas de 2009 e 15 nas 247 largadas que contabilizou em sua carreira; nomes como Juan Pablo Montoya vencedor de sete GPs entre as temporadas de 2001 a 2005 deixaram muito mais saudades.

Comunidade que concentra a maior parte do negócio Fórmula 1, a Grã-Bretanha tende a favorecer seus filhos e não são poucos os casos de promessas que tiveram grandes chances e nunca vingaram. Se você pensou nos escoceses David Coulthard e Paul Di Resta, nos ingleses Derek Warwick, Mark Blundell e Martin Brundle, até mesmo no irlandês Eddie Irvine, estamos sintonizados. Não se pode coloca-los em qualquer lista de “braços-duros” (como os pilotos mais lentos são chamados no jargão do esporte), mas jamais corresponderam ao que a imprensa britânica alardeou ao mundo.

Dito isso podemos olhar a três nomes desta temporada com algum parâmetro para prever onde poderão chegar. O primeiro deles é Charles Leclérc, terceiro monegasco a brilhar na F-1; os outros dois foram Louis Chiron e André Teslut. Leclerc vive sua segunda temporada em uma equipe de ponta, onde chegou amparado tanto politicamente quanto pelo potencial demonstrado em seus anos de formação.

Alçado a escudeiro de ninguém menos que o tetracampeão Sebastian Vettel, Leclérc não se intimidou e em sua segunda apresentação pela Scuderia superou o companheiro de equipe em plena pista e à vista do público que acompanhou a prova pela TV. Foi uma ultrapassagem para deixar claro que veio para ficar. A já longa e desgastante fase de erros e resultados instáveis do alemão ajuda a consolidar o recém-chegado como aposta segura. No fim de semana Leclerc obteve sua primeira pole position e liderou a prova até que um problema na unidade de potência do seu Ferrari o fez perder posições para o vencedor Lewis Hamilton e o segundo colocado Valtteri Bottas, que segue líder do campeonato. O resultado completo do GP do Bahrein você encontra aqui.

Passemos a Lando Norris, outro jovem que vinha em uma carreira de títulos consecutivos até ser batido pelo compatriota George Russell na temporada passada de F-2. Tanto Norris quanto Russell também exibem capital político: o primeiro é bancado por Zak Brown, homem de marketing e diretor do grupo McLaren, e o segundo por Toto Wolff, o bam-bam-bam da Mercedes na F-1. Filho de um dos homens mais ricos da Inglaterra, Norris ameaça virar o algoz de Carlos Sainz Júnior e para isso conta com as bençãos de Brown, da sorte que o acompanha e da timidez de resultados que caracteriza a carreira ainda incubada do espanhol.

George Russell, por seu lado, vem de dois títulos importantes, na GP3 (2017) e na F-2 (2018). No ano passado Lando Norris era o favorito disparado ao título, mas Russell presenteou o compatriota como uma ducha de água ainda mais fria que os banhos gelados que Jim Clark relatou como rotina dos seus tempos de estudante. A Inglaterra é famosa por ter uma das gastronomias mais indecentes do mundo e não será surpresa se a vingança será saboreada igualmente fria se Toto Wolff deixar claro que escolheu um novo Pascoal Wehrlein, jovem alemão que conquistou a DTM e decepcionou a F-1.

Por enquanto, Norris leva vantagem sobre Russell: enquanto o primeiro vê planetas alinhados em torno do seu McLaren, o segundo amarga uma temporada de estreia em uma equipe Williams que vive a pior fase de sua história. Ter sido escolhido para testar pneus no Bahrain pela equipe Mercedes pode ser uma injeção de ânimo importante para um jovem em formação e ameaçador para um Valteri Bottas próximo do ápice de sua ascensão.

Já formado, o australiano Daniel Ricciardo amenizou no GP Bahrain a decepção com a qual brindou seus fãs na estreia pela equipe Renault, duas semanas atrás, na sua terra natal. O que coloca o sorridente Ricciardo na berlinda é o fato que seu companheiro de equipe e parâmetro de comparação é um piloto que já disputou 160 GPs e ainda não conseguiu um único lugar ao pódio, Nico Hulkenberg. Como Ricciardo tem no currículo 152 largadas e sete vitórias, ter andado atrás do alemão nas duas primeiras corridas do ano, sugere que seu cartão de crédito já não permite gastos irracionais.

Outros nomes que caminham turbinados para a lista dos que jamais chegaram onde esperavam são Romain Grosjean, Kevin Magnussen e Sérgio Pérez. Todos arrojados em graus próximos, eles são candidatos a ter seus postos cobiçados por valores a caminho, em especial o franco-suíço e o dinamarquês; o mexicano ainda se garante graças a bom apoio de patrocinadores e à economia ainda estável do México.

Por outro lado, quem dá mostras de superação é o anglo-tailandês Alexander Albon: ele brilhou nos testes de inverno e acabou marcando os primeiros pontos da Toro Rosso, onde o outro piloto é Daniil Kvyat. A sorte ajudou Albon -  quem apostaria numa desistência estilo jogral dos dois pilotos da Renault, em Sakhir? -, mas existe vencedor azarado? Seu cacife anda tão alto que ele treinar nos dois dias de testes que acontecem hoje e amanhã, em Sakhir (veja abaixo), usando seu carro atual, Daniil Kvyat testará os novos pneus.

Passando a borracha em Sakhir 
Hoje e amanhã as dez equipes inscritas no Campeonato Mundial de F-1 fazem testes no traçado usado no fim de semana e entre os pilotos escalados aparece uma boa mistura de monstros sagrados, nomes consolidados e novatos com potencial de fazer parte do grid no futuro próximo. Na primeira categoria está o espanhol Fernando Alonso, que vai pilotar um McLaren
equipado com pneus de aro 18”, alternativa que a Pirelli espera utilizar em 2020 ou 2021. No último caso estão o brasileiro Pietro Fittipaldi e o alemão Mick Schumacher; Fittipaldi é o piloto de testes e primeiro reserva da equipe Haas enquanto Schumacher vê seu potencial valorizar como se fosse uma cripto-moeda: ele vai andar com carros da Ferrari e da Alfa Romeo (ex-Sauber).

Outros nomes pouco familiarizados com a F-1 que estarão em ação são Dan Ticktum (Red Bull), Callum Illott (Alfa Romeo) e Jack Aitken (Renault). Veja abaixo a lista completa dos pilotos que estarão em ação hoje e amanhã:
Mercedes: Lewis Hamilton (terça-feira), George Russell (quarta-feira)
Ferrari: Mick Schumacher (terça-feira), Sebastian Vettel (quarta-feira)
Red Bull: Max Verstappen (terça-feira), Dan Ticktum (quarta-feira)
Renault: Daniel Ricciardo (terça-feira), Jack Aitken (quarta-feira)

Anglo-coreano Jack Aitken faz parte da Academia Renault (Renaullt Sport)
Haas: Romain Grosjean (terça-feira), Pietro Fittipaldi (quarta-feira)
McLaren: Carlos Sainz (terça-feira), Lando Norris (terça-feira à tarde e quarta-feira)
Racing Point: Lance Stroll (terça-feira), Sergio Perez (Quarta-feira)

Alfa Romeo: Callum Ilott (terça-feira), Mick Schumacher (Quarta-feira)
Toro Rosso: Alexander Albon (terça-feira and Quarta-feira)

Canadense Nicolas Latifi, vice-líder da F-2 2019, vai andar com um WIlliams (Williams)
Williams: George Russell (terça-feira AM), Robert
Kubica (Terça-feira PM), Nicholas Latifi (Quarta-feira)
Teste Pirelli com McLaren: Fernando Alonso (Terça-feira e quarta-feira à tarde), e Carlos Sainz (quarta-feira de manhã)


Teste Pirelli com Toro Rosso: Daniil Kvyat (terça e quarta-feiras)

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

PIETRO FITTIPALDI TESTARÁ UM CARRO DE FÓRMULA E PELA EQUIPE PANASONIC JAGUAR RACING


O piloto Pietro Fittipaldi fará uma bateria de testes em um carro de Fórmula E pela equipe Panasonic Jaguar Racing no próximo dia 13 de janeiro, em Marraquexe, no Marrocos. O brasileiro irá acelerar o I-TYPE 3, carro usado pela dupla de pilotos Nelsinho Piquet e Mitch Evans nesta temporada.A bateria de testes precede a segunda etapa da temporada 18/19 da categoria que reúne os veículos 100% elétricos mais rápidos do planeta. A prova será será realizada na cidade marroquina no próximo sábado, 12.  

Neto do bi-campeão mundial de Fórmula 1 e duas vezes vencedor das 500 Milhas de Indianápolis Emerson Fittipaldi, Pietro é atualmente piloto de testes da equipe HAAS de Fórmula 1. O piloto de 22 anos também venceu a temporada 2017 de Fórmula V8 3.5 litros.

Além de Pietro, o promissor piloto inglês Harry Tinckell, vencedor das 24 Horas de Le Mans na categoria P2 também participará da bateria de testes, neste que será seu segundo contato com um veículo da categoria – o primeiro ocorreu no circuito de Donington Park em 2016.

A equipe Panasonic Jaguar Racing volta às pistas neste sábado, 12 de janeiro em Marraquexe com seus pilotos Nelsinho Piquet e Mitch Evans na segunda etapa da temporada 2018-2019 de Fórmula E. Ambos os pilotos conseguiram terminar a primeira corrida da temporada dentro da zona de pontuação, o que deixa a equipe extremamente otimista para essa segunda etapa no Marrocos.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Wagner Gonzalez em Conversa de pista


F-1 Em Interlagos: o que mudou em 47 anos?

De arquibancadas lotadas à espaços reduzidos nos meios de comunicação e do controle-quase-censura à aceitação das redes sociais, muita coisa mudou nos 47 anos que a F-1 visita o Brasil anualmente. O País com oito títulos mundiais – quase nove se você considerar a temporada de 2008 –, hoje desenvolve uma relação com a categoria que reflete diretamente os valores que se praticam neste circo cada mais vez mais mundial e cada vez menos razão de viver de todo e qualquer piloto com expectativas de se tornar profissional. E é nesse contexto que a categoria segue crescendo e disputas mal resolvidas ainda caracterizem os mais novos façam relembrar nomes consagrados.

Falar da F-1 em números frios é algo politicamente correto demais para quem segue entendendo o automobilismo como esporte. Na era de Bernie Ecclestone, que aparece na foto entre os dois comandantes da Red Bull, tudo girava estrita e cruelmente em faturamento. Por mais que os mandamentos do marketing e do show business  ganhem espaço na categoria, a aura de desafio e realizar manobras que beiram o inacreditável, tudo isso mesclado com uma boa pitada de aristocracia, ainda são características de uma atividade que movimenta milhões de qualquer moeda e gera milhares de empregos mundo afora há várias décadas.

Um personagem que caracteriza isso muito bem é Jackie Stewart: aos 79 anos ele continua explorando muito bem a fama que construiu no período entre 1965 e 1973. Poucos se lembram do seu início na BRM, onde se impôs frente a Graham Hill, um dos playboys mais “família” e mais rápidos que a F-1 já conheceu, mas 50 anos depois disso ele segue cultivando a imagem de embaixador para diversas grifes, como a Rolex. E foi em uma recepção da marca que o escocês comentou como vê a categoria na era pós-Bernie:
“Você conhece o Bernie, sabe como ele controlava a F-1. A Liberty Media tem uma visão diferente, eu diria que mudou uns 50%. Em vez de fechar, eles querem se abrir para o mundo e em 2020 teremos uma corrida no Vietnam. A cultura dessa empresa vem do show business, música e do entretenimento, por isso estão abrindo possibilidades. Essa é a grande mudança.”
  
Uma das maiores mudanças da atualidade é a ampliação do campeonato, que este ano teve 21 etapas e, pela primeira vez na história, três delas disputadas em três fins de semana consecutivos (24/6, França; 1/7, Inglaterra e 8/7, Áustria), prática que foi reprovada pelas equipes. Se isso não se repetirá, a temporada de 2019 segue com 21 provas e é provável que em 2020 a lista chegue aos 22 com a inclusão de uma etapa em Hanói. Uma outra corrida no sudeste asiático e um segundo GP  nos Estados Unidos são outras possibilidades factíveis.

Nesse contexto o GP do Brasil parece seguro: em breve haverá uma nova reforma nas instalações do autódromo José Carlos Pace que, a partir de 2020 receberá também uma prova do Campeonato Mundial de Resistência, o WEC. Por um lado, isso afasta a possibilidade de Interlagos ser desativado, como queria o ex-prefeito João Dória Júnior, o que é bom. Por outro, levanta a questão da necessidade de tantas reformas no circuito sem nunca ter sido obtido um resultado satisfatório para os usuários nacionais, o que é ruim. Que as próximas mudanças sejam mais definitivas e funcionais e menos destino de alterações cosméticas passíveis de ensejar questionamentos é a vontade dos eleitores que usam Interlagos dentro do fim para o qual ele foi construído.

Questionamento é o que não faltou no fim de semana de Interlagos, em particular dois temas: a ausência de pilotos brasileiros no grid e a manobra que tirou o holandês Max Verstappen da liderança da prova. No primeiro caso os anúncios de Sérgio Sette Camara e Pietro Fittipaldi como pilotos de teste para as equipes McLaren e Haas, respectivamente, abrem espaço para que em situações excepcionais ambos possam alinhar em uma corrida em 2019 ou, mais factível, disputar com chances reais uma vaga de titular em 2020. Na McLaren a aposta seria para substituir Carlos Sainz Jr: Lando Norris, o outro piloto do time para o ano que vem, é cria da casa e deverá ser mantido sem maiores questionamentos.

Já na Haas as chances de Fittipaldi parecem mais palpáveis e os motivos são claros: os pilotos atuais estão distantes de preencherem 100% das necessidades do time, a ligação de Pietro com o grupo Telmex pode significar um aporte financeiro importante para o time norte-americano e o chefe de equipe Gunther Steiner já sinalizou que espera preferência no programa de corridas do brasileiro nos próximos 12 meses. Mais do que isso deixou claro que sua contratação nada tem a ver com seu sobrenome:

“Se quiséssemos fazer marketing teríamos chamado o Emerson...”

Já o segundo tema não teve o mesmo cenário de objetividade e fez renascer um assunto no qual é difícil separar paixão da razão e da frieza. Estebán Ocón e Max Verstappen já se estranharam na pista em várias oportunidades, particularmente quando disputaram a F-3, três temporadas atrás. Verstappen chegou mais cedo à F-1 por ter caído nas graças de Helmut Marko e, consequentemente, da Red Bull. Ocón teve um caminho mais longo e menos brilhante ao conseguir vaga na mais modesta Force India, onde não se intimidou com a presença do mais experiente Sérgio Pérez

Tanto o franco-catalão quanto o holandês já se envolveram em inúmeras disputas de posição nem sempre indeléveis, a julgar pelas marcas deixadas em seus carros. As manobras de Verstappen ganharam proeminência por ele estar lutando por posições dianteiras; muitas artes de Ocón foram contra seu próprio companheiro de equipe e caracterizaram uma paridade de desempenho poucas vezes vista na categoria. O arrojo do piloto da Red Bull, no entanto, foi sempre mais pronunciado que o do rival da Force India.

Verstappen lembra, em muitos aspectos, Ayrton Senna em início de carreira: chegou chegando, ignorou o status quo de nomes consagrados e sempre deixou claro que considera estar em vantagem em qualquer situação de corrida. Essa atitude funciona na maioria dos casos, mas cobra um preço alto: constrói a fama de irresponsável e temerário, pechas que serão diluídas apenas com a conquista de títulos mundiais. Senna venceu três títulos; Gilles Villeneuve, um dos mais arrojados de todos os tempos, é talvez o único que até hoje conquistou seu habeas corpus mesmo sem sagrar-se campeão. Importante lembrar que o canadense, pai de Jacques (campeão mundial de 1997), nunca foi acusado de ser desleal.

O episódio entre Ocón e Verstappen não teve início na freada para o S do Senna nem no momento em que seu carro recebeu pneus mais novos e de composto mais macio, o que lhe dava maior vantagem nas curvas. O começo dessa história está na antiga rivalidade entre ambos, na necessidade de o primeiro
mostrar que não se intimida com o antigo rival, e na imaturidade do segundo. Verstappen tinha muito mais a perder naquela situação e perdeu uma vitória que parecia certa e que merecia, até então. De volta aos boxes, os dois se encontraram no box onde a FIA fez a pesagem dos pilotos e o holandês empurrou o rival três vezes. Mais maduro e com cinco títulos no currículo, Lewis Hamilton aproveitou a tragédia que aconteceu na e teve um dia de glória ao vencer em Interlagos e garantir à Mercedes o título de construtores, honrando a fleuma inglesa e a frieza teutônica.

O resultado completo do GP do Brasil você encontra clicando aqui.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

JAGUAR RACING ESTÁ PRONTA PARA O EPRIX DE MARRAKESH

Após conquistar excelentes resultados na abertura da temporada 2017 / 2018 da Fórmula E em Hong Kong, com um terceiro e quarto lugares, a equipe Panasonic Jaguar Racing chega ao Circuito Internacional Moulay El Hassan, no Marrocos, pronta um ePrix ainda melhor.

A corrida acontece as 14h no horário de Brasília no próximo sábado, 13 de janeiro, e percorrerá um circuito de três quilômetros de extensão pelas ruas de Marrakesh. A pista é uma das mais longas da temporada, o que obrigará todas as equipes e pilotos a fazerem um controle extremamente correto da energia disponível nos seus veículos.

A dupla de pilotos formada pelo campeão da categoria Nelson Piquet Jr e pelo piloto neozelandês Mitch Evans chega à etapa africana extremamente confiante em um resultado ainda melhor do que o obtido em Hong Kong.

Para Piquet Jr, primeiro campeão da categoria, “meu primeiro fim de semana com a Panasonic Jaguar Racing foi além das minhas expectativas. Começar a temporada já marcando pontos é extremamente positivo, mas nosso trabalho ainda está longe de terminar. Mitch e eu estamos trabalhando duro para chegarmos a Marrakesh ainda mais competitivos, prontos para estarmos entre os primeiros. Nós já mostramos nosso potencial, mas essa é uma longa temporada que está apenas começando”.

O ePrix de Marrakesh terá transmissão ao vivo pelo canal Fox Sports. Os espectadores podem ajudar Nelson Piquet Jr. e Mitch Evans, dando uma energia extra aos pilotos. Basta acessar o link http://fanboost.fiaformulae. com/ e clicar em Nelson Piquet Jr. ou Mitch Evans.

O jovem piloto Pietro Fittipaldi, revelação no automobilismo internacional, está prestes a dirigir pela primeira vez um veículo de Fórmula E. A equipe Panasonic Jaguar Racing confirmou a realização dos testes um dia após ePrix de Marrakesh, no Marrocos, que acontecerá no próximo dia 13 de Janeiro.

Neto do bicampeão de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, Pietro vem de uma temporada vitoriosa em 2017, com a conquista do título da Fórmula V8 3.5 e se consolidou como um dos maiores nomes do automobilismo brasileiro na Europa. O brasileiro terá como companheiro nos testes do dia seguinte, domingo 14, o experiente piloto britânico Paul di Resta.

Para James Barclay, diretor geral da equipe Panasonic Jaguar Racing, “Pietro teve realmente uma incrível temporada em 2017 e Paul nos dará um excelente aprendizado por toda sua bagagem como piloto de Fórmula 1. Os testes serão uma excelente oportunidade para desenvolvermos ao máximo o nosso I-TYPE 2 com pilotos de diferentes estilos. Nós estamos ansiosos para dar as boas-vindas aos dois, em sua primeira experiência a bordo de um Fórmula E”. 


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

PIETRO FITTIPALDI TESTARÁ FÓRMULA E DA EQUIPE JAGUAR


O jovem piloto Pietro Fittipaldi, revelação no automobilismo internacional, está prestes a dirigir pela primeira vez um veículo de Fórmula E. A equipe Panasonic Jaguar Racing confirmou a realização dos testes um dia após ePrix de Marrakesh, no Marrocos, que acontecerá no próximo dia 13 de Janeiro.

Neto do bicampeão de Fórmula 1, Emerson Fittipaldi, Pietro vem de uma temporada vitoriosa em 2017, com a conquista do título da Fórmula V8 3.5 e se consolidou como um dos maiores nomes do automobilismo brasileiro na Europa. O brasileiro terá como companheiro nos testes do dia seguinte, domingo 14, o experiente piloto britânico Paul di Resta.

Fittipaldi:Estou extremamente feliz e grato pela oportunidade que a equipe Panasonic Jaguar Racing me deu de testar o I-TYPE 2. Eu sempre segui de perto a Fórmula E, desde os primeiros testes dos veículos da categoria, em Donnington. Por isso mesmo eu estou bastante ansioso para dirigir esse modelo que também traz toda a herança que a Jaguar tem no esporte a motor. É realmente um privilégio”.


Para Di Resta“Estou com muita expectativa para o meu primeiro teste em um Fórmula E a bordo do I-TYPE 2. 

Essa é uma oportunidade perfeita na época do ano ideal para isso. É muito bom começar esse relacionamento com a equipe Panasonic Jaguar Racing e estou certo que será um grande dia em Marrakesh. Espero dar o maior número de impressões positivas aos engenheiros”.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Wagner Gonzalez em Conversa de pista

 Apesar de tudo, temos campeões

Wagner Gonzalez
Pietro Fittipaldi venceu World Series e impressiona no WEC.

Bruno Senna é campeão mundial na LMP2.

Vereadores decidem futuro de Interlagos


Há vida além da F-1 e Bruno Senna e Pietro Fittipaldi confirmaram isso ao conquistar dois títulos importantes nesta temporada, respectivamente nas categorias LMP2 e V8 World Series: graças aos dois, temos campeões de nível mundial em 2017. Não bastasse isso o gaúcho Matheus Leist foi confirmado como companheiro de Tony Kanaan na equipe de A.J. Foyt para disputar a temporada 2018 da IndyCar. Exceto uma reviravolta do mercado da categoria máxima, ficaremos sem um representante no Campeonato Mundial de Pilotos pois não há espaço nem candidato para substituir o “aposentando” Felipe Massa, que domingo encerra, de vez, carreira no nível mais alto. A F-E na temporada 2018/2019 deverá ser seu destino após um período sabático

Opção outrora embrulhada para presente em papel glamour e laços de competência, a F-1 perdeu muitos dos valores que a consagraram mundo afora e busca uma identidade que a reposicione como objeto de desejo e item de consumo para os mais jovens. Tal qual a revolução provocada pelo excesso de informação veiculada via internet, o automobilismo de competição também experimenta uma fase de grande oferta de categorias, o que faz surgir mercados voltados para clientes dos mais variados. E aqui voltamos a falar de Pietro e Bruno, os novos campeões.

Fittipaldi e Senna, dois sobrenomes com estirpe de campeões, não estão só nessa cruzada em busca de fazer o que gostam e com competência. Christian Fittipaldi continuou brilhando no cenário de Endurance norte-americano, Lucas Di Grassi garantiu o título da F-E (o segundo do Brasil em três temporadas), Victor Franzoni se impôs na série ProMazda e inúmeros outros nomes foram destaques em várias categorias. A maioria absoluta desses pilotos, porém, já não vê a F-1 como o olimpo sonhado por Emerson, Piquet e Senna, nomes que a consolidaram como categoria preferida pelos brasileiros.

Esses três campeões mundiais percorreram uma trilha semelhante - as categorias de base no Brasil ou na Europa -, mas hoje soterrada por um fenômeno que permitiu a um holandês disputar a F-1 com apenas 17 anos, caso de Max Verstappen. Ponto fora da curva, sua trajetória continuará sendo única por um bom tempo: a Federação Internacional do Automóvel (FIA) decidiu impor um sistema de formação que exige obter resultados mínimos em diversas categorias para conquistar a super-licença necessária para alinhas nos Grandes Prêmios.

Como o funil é tão estreito quanto cruel – as 20 vagas da F-1 acabam preenchidas por valores que vão da competência ao potencial de mercado que o aspirante representa, o destino de muitos jovens acaba seguindo caminhos diferentes dos sonhos de kartista. Assim, não surpreende que Leist optou pelo automobilismo norte-americano, Senna e Di Grassi abdicaram de fazer carreira no mundo dos GPs e Pipo Derani escolheu o mundo das provas de longa duração para consolidar sua carreira, para citar apenas alguns.

No Brasil vivemos situação semelhante e a renovação do quadro de pilotos é mais lenta do que seria ideal, culpa de uma conjuntura onde os caciques são muitos e os índios cada vez mais raros. O kart, base da pirâmide, permite que pré-adolescentes e adolescentes treinem com liberdade cerceada apenas pelo poder financeiro de cada um. Na medida em que crescem e buscam alternativas para desenvolver suas carreiras surgem empecilhos como a proibição de treinos livres, categorias de custo altamente restritivos e automóveis bastante defasados em relação ao que existe no exterior.

As tentativas que tentam romper essas barreiras começam a dar sinais de sucesso: o campeonato Brasileiro de Endurance – com apelo focado no Rio Grande do Sul – e a F-Inter, categoria paulistana que oferece um pacote econômico atraente. Quando se nota que a frota brasileira de automóveis cresceu significativamente nos últimos anos e o número de pilotos filiados à Confederação Brasileira de Automobilismo diminuiu em cerca de 20% nota-se que há algo errado.

Um exemplo é o  fantasma que remete ao cruel destino que a ganância de alguns cariocas fez destruir o autódromo de Jacarepaguá, o principal autódromo do Brasil, fantasma que ronda Interlagos, um circuito administrado de forma discutível. Seus responsáveis privilegiam um evento que gera uma semana de bons negócios para o turismo da cidade e ignoram que o GP do Brasil só existe porque surgiu do sucesso que o automobilismo de base proporcionou. Hoje os vereadores da cidade de São Paulo discutem em plenário o processo de privatização do Autódromo José Carlos Pace sem que uma única audiência pública tenha sido realizada para debater o assunto. Trata-se de demonstração inequívoca de desrespeito à população de uma cidade onde semáforos funcionam aleatoriamente, multas de trânsito são aplicadas com a ganância de caça-níqueis e o prefeito concentra seu tempo em alçar sua carreira política a níveis mais altos ao que costuma passar boa parte do seu tempo em inúmeras viagens pelo Brasil e pelo Exterior.

Se você está em São Paulo nesta terça-feira e tem interesse em defender o futuro de Interlagos compareça ao plenário da Câmara Municipal a partir das 14 horas. Sua presença é importante para o futuro do automobilismo brasileiro.

Pensou que me enganava – O neozelandês Brendon Hartley e o francês Pierre Gasly foram confirmados como a dupla de pilotos da Scuderia Toro Rosso para a temporada de 2018. Quem acompanhou os últimos movimentos da equipe não se surpreendeu nem um pouco com a notícia; com relação ao campeonato do ano que vem a expectativa real é o potencial do motor Honda, que tem melhorado substancialmente na segunda fase da temporada.

Toyota segue firme - Sem dúvida em busca da tão sonhada vitória nas 24 Horas de Le Mans, a Toyota anunciou no Bahrain a continuidade do seu programa na categoria Endurace para a super temporada 2018-2019. 

Após o encerramento da temporada 2017 o time Gazoo Racing testou vários pilotos, entre eles o espanhol Fernando Alonso, cujo nome é cada vez mais cogitado para defender a marca na edição de 2018 da clássica prova francesa. No treino reservado para novos pilotos Alonso fez o segundo tempo, atrás de Pietro Fittipaldi (que conduziu um Porsche 919 Hybrid). Seus assessores, porém, anunciaram que o espanhol não fez nenhuma volta com acerto de classificação.

Foyt verde-amarelo – Ao anunciar o gaúcho Matheus Leist para ser companheiro de equipe de Tony Kanaan, o legendário A.J.Foyt já vê sua equipe ser citada no ambiente da categoria IndyCar como “Team Brazil”. 

Será interessante acompanhar os trabalhos do time: nos últimos anos Kanaan defendeu a equipe de Chip Ganassi, enquanto Leist desembarca na categoria após ter brilhado na categoria Indy Light; entre seus melhores resultados está a vitória na preliminar das 500 Milhas de Indianapolis.

Danica se aposenta em maio – A norte-americana Danica Patrick deverá encerrar sua carreira de piloto com uma última participação nas 500 Milhas de Indianapolis de 2018, prova marcada para o dia 27 de maio. 

Sem patrocinadores para continuar na Nascar, acredita-se que a estadunidense nascida em Beloit (estado de Wiscosin), vai focar suas atividades profissionais como comentarista de TV.

terça-feira, 29 de março de 2016

Wagner Gonzalez em Conversa de pista

Wagner Gonzalez

A VENDA DA F-1 E A LEI DE LAVOISIER‏

Às vésperas da segunda etapa da temporada,  no Bahrein (foto acima, largada no cair da tarde lhe dá colorido especial), a hipótese de que 34,6% do controle acionário da F-1 troque de mãos volta a circular como possível pedra de toque para provocar mudanças na estrutura da categoria. 


Por outro lado, as negociações sobre a manutenção de Monza no calendário e do sistema de classificação implementado no GP da Austrália mostram que o enunciado feito por Antoine Lavoisier em 1774 – “nada se cria, nada se perde: tudo de transforma”, ganha uma releitura que sugere algo como ”na F-1 nada se cria, nada se perde, nada se transforma”.

A venda de ações da categoria mais importante do automobilismo mundial não é exatamente uma ideia nova: há mais de uma década fala-se no assunto. O sobe-e-desce do mercado mundial dos pregões internacionais e um processo movido pelo banco alemão Bayern LC contra Bernie Ecclestone, alegando quebra de contrato e favorecimento à CVC Capital Partners, se encarregaram de adiar a materialização desse objetivo. Após semanas tensas em sessões nos tribunais tedescos, Ecclestone desembolsou cerca de US$ 125 milhões, foi inocentado pela Justiça alemã e ao final do processo voltou a comandar a categoria.

Cálculos não oficiais indicam que o investimento inicial da CVC Capital Partners, cerca de £ 1,2 bilhão, já rendeu três vezes esse valor. Se você considera que esse lucro é pouco, o valor de mercado para os 34,6% controlados pelo fundo de investimentos que atua na Europa, China e Estados Unidos é algo entre £ 6 milhões e £ 8,5 bilhões e não, não faltam interessados: dependendo da fonte consultada. Ecclestone diz que que há dois compradores legítimos e que o preço já está definido…

Num plano mais próximo dos mortais comuns, porém ainda muito acima da grande maioria que se interessa pela F-1, a renovação do contrato entre a Formula One Management (FOM) e os promotores do GP da Itália segue se arrastando entre declarações contraditórias. Como que a reforçar que na natureza desses negócios nada se transforma, lembro que durante as mais de duas décadas que acompanhei a categoria in loco a corrida italiana sempre foi alvo de muitas controvérsias: primeiro os ambientalistas que foram viver próximo ao Parco Reale di Monza reclamavam do barulho, depois do corte de árvores para adequar o quase centenário circuito, cuja inauguração data de 1922, e por aí vai.

Pouco a pouco o discurso ambientalista perdeu lugar para a necessidade de adequar o paddock do autódromo ao crescimento da categoria, porém nesse processo de cobrança ficou evidente que o preço para garantir Monza no calendário iria subir cada vez mais. Durante muito tempo a idade e o tradicionalismo do traçado milanês foram suficientes para manter tudo acomodado; hoje em dia, quando os lucros estão em primeiríssimo lugar, isso já não basta. Daí a tertúlia que mescla as escolas italiana e inglesa de negociação…

O que está em jogo é a renovação do contrato que manterá Monza no calendário da F-1 entre 2017 e 2020 ao custo inicial de € 25 milhões anuais e adequações do circuito. A negociação vinha sendo tratada pelo presidente do Automóvel Clube da Itália, Angelo Sticchi Damiani, porém quando a conversa empacou de vez os italianos chamaram o antigo gestor do Autódromo de Imola, Federico Bendinelli, para negociar com Ecclestone em meio a uma negociação que envolve Sergio Marcchione (chefão da FCA) e até mesmo o atual primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi.

Todos eles, mais Roberto Rampi (deputado de Vimercate, município situado entre Monza e Milão) se encontraram no motor-home da Ferrari no último GP da Itália. Rampi indicou que a administração da Lombardia (região que engloba Milão, Monza, Vimercate e outras comunas) completaria o orçamento necessário para garantir a renovação do acordo, mas mesmo assim a reação provocada não provocou ganhos, perdas nem mesmo mudou algo…

Como que a gerar algum tipo de pressão sobre os italianos, esta semana voltaram a circular rumores de uma segunda etapa nos Estados Unidos, mais precisamente em Las Vegas. Quando se lembra que o GP em Austin deste ano estava ameaçado, essa atitude de promover uma segunda corrida num país historicamente pouco receptivo à F-1 faz lembrar os tempos em que a rivalidade entre Rio e São Paulo era usada para aumentar os custos da corrida brasileira.

Da mesma forma do que ocorre com Monza, o anunciado retorno ao antigo sistema de classificação usado nas últimas temporadas foi anunciado e cancelado após o resultado altamente discutível do que aconteceu no GP da Austrália. Em busca de melhorar a qualidade do espetáculo de sábado foi adotado um sistema de eliminação na base do mata-mata ou dança das cadeiras: após um período de tempo o piloto mais lento na pista era eliminado. A novidade não foi planejada como deveria, as equipes não tiveram tempo para explorar todas as nuances estratégicas da mudança e o que se viu foi uma pista vazia quando ainda restavam pouco menos de cinco minutos para terminara a Q3, a fase decisiva da tomada de tempos.

Esse fato suscitou debates e discussões e não demorou muito para que se anunciasse a volta ao padrão antigo, para depois se discutir a adoção de uma solução mista e por fim, anunciar que nada muda… Esta não é a única mudança em debate na categoria, onde a renovação do público que consome o entretenimento chamado Fórmula 1 se dá de maneira lenta e discutível. Até mesmo os pilotos pedem adequações às várias práticas e regulamentações num espectro que vai desde o desempenho dos carros, considerado aquém do que consideram um desafio aos mais hábeis, passa pelo volátil processo como são punidas manobras e acidentes discutíveis e chega até mesmo à já veterana rejeição de aceitar a internet sem maiores reservas.

Enquanto isso, as equipes começam a desembarcar no Bahrein para a segunda etapa da temporada e sobram rumores para alimentar os encontros em salas de embarque de aeroportos, mesas nos hospitality centers do autódromo de Sakhir, 30 quilômetros ao sul da capital Manama. Entre os tópicos em alta destaca-se possíveis fatos que marcarão o final da temporada que apenas começa: a Williams trocando seus motores Mercedes pelos da Honda, Max Verstappen assinando com a Ferrari, a Renault abdicando de desenvolver o seu carro atual para focar em 2017 e os novos carros que Fernando Alonso e Estebán Gutiérrez estrearão no fim de semana.

Toto Wolff já divulgou que tanto a Williams quanto a Force India têm contrato para usar a unidade de potência da Mercedes até 2020, o que impediria a mudança. A ideia, porém, já foi comentada por Damon Hill, que conhece alguma coisa da equipe de Frank Williams. Da mesma forma, fontes ligadas à Red Bull garantem que o contrato que prende Verstappen à equipe do touro é difícil de ser quebrado e mantê-lo na equipe significaria abrir-lhe uma vaga na equipe RBR. Quem sabe isso liberaria Daniel Ricciardo para a Scuderia… A equipe italiana é tradicional destino de pilotos que vivem momentos de celebridade, daí que se Valteri Bottas voltar a se destacar, o assunto renderá muitas manchetes…

Quanto à Renault, é comum que, em função dos resultados obtidos até a metade da temporada, equipes em processo de reestruturação passem a concentrar esforços na construção do carro para o ano seguinte. Neste caso, porém, Frédéric Vasseur declarou que “todos sabem que estamos sob pressão para obter bons resultados, ignorar a temporada de 2016 seria um erro”.

Um dos fatos mais comentados do GP da Austrália, o acidente entre Fernando Alonso e Estebán Gutiérrez levou as equipes McLaren e Haas a construir dois carros novos para seus pilotos. O estado em que ficou o McLaren MP4/31 do espanhol motivou a FIA (Federação Internacional do Automóvel) a estudar com mais atenção o estado em que ficou o chassi e dar especial atenção ao banco do carro, que rachou no impacto, algo não esperado. Além do carro, Alonso também vai correr com um novo motor no Bahrein. 

A sessão de treino livre de sexta-feira marcará a estreia de Alfonso Cellis Jr, o mexicano de 19 anos que hoje e amanhã (28 e 29) participa de treinos livres em Barcelona para os pilotos que vão disputar a temporada de Fórmula 3.5. Esta usa os carros da antiga F-Renault 3.5, competição organizada pelo espanhol Jaime Alguersuari, pai do piloto que disputou 46 GPs pela equipe Toro Rosso entre 2009 e e 2001. A lista de inscritos inclui os brasileiros Pietro Fittipaldi, neto de Emerson, e Vítor Batista.


WG