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quarta-feira, 6 de março de 2019

Wagner Gonzalez em Conversa de pista

Wagner Gonzalez

F-1: REFLEXÕES DA CATALUNHA

Barcelona gera expectativas e cobranças para Melbourne

É fato consumado que apenas após as três primeiras etapas da temporada de F-1 pode-se ter uma ideia clara sobre as possibilidades de cada equipe durante o Campeonato Mundial de cada ano. Em 2019 serão os traçados de Melbourne (Austrália) Sakhir (Bahrain) e Shangai (China) que ajudarão a esclarecer tal cenário, mas as duas sessões de testes recém completados há poucos dias em Barcelona (Espanha), já permite enxergar formas dessa imagem que pouco a pouco serão cristalizadas. Analisar o resultado por equipes, quilometragem percorrida e a consistência de pilotos e equipes são indicativos que ajudam a acertar o foco de tal cenário.

É fato consumado que apenas após as três primeiras etapas da temporada de F-1 pode-se ter uma ideia clara sobre as possibilidades de cada equipe durante o Campeonato Mundial de cada ano. Em 2019 serão os traçados de Melbourne (Austrália) Sakhir (Bahrain) e Shangai (China) que ajudarão a esclarecer tal cenário, mas as duas sessões de testes recém completados há poucos dias em Barcelona (Espanha), já permite enxergar formas dessa imagem que pouco a pouco serão cristalizadas. Analisar o resultado por equipes, quilometragem percorrida e a consistência de pilotos e equipes são indicativos que ajudam a acertar o foco de tal cenário.

A Mercedes mostrou seu poderio ao conseguir a maior quilometragem das duas semanas de teste (1189), dedicar grande quantidade de horas para validar resultados indicados em simulações realizadas por computador e, segundo muitos, a utilizar duas propostas diferentes de chassis. Tanto Lewis Hamilton (2º, 1’16”224), quanto Valtteri Bottas (4o, 1’16”561) mostraram-se focados em trabalhar sem interesse direto em tempos absolutos, deixando esse objetivo apenas para o último dia de trabalho em cada semana. Prova disso disso é que o aproveitamento mediano de ambos ficou aquém de muitos rivais menos competitivos, respectivamente 8,63 e 8,25.

No resultado geral mais uma vez ficou patente que o inglês continua alguns décimos mais rápido que seu companheiro de equipe e tão rápido quanto o eterno rival Sebastian Vettel. De acordo com James Allison, diretor esportivo do time, na sexta-feira passada Hamilton e Bottas andaram com o carro na especificação mais próxima do que será usado em Melbourne, condição que consolida mais uma temporada de luta ferrenha com a Ferrari

Nessa classificação por consistência a surpresa foi o desempenho de Lando Norris (3,25) e Carlos Sainz Jr (4,50). Mais do que qualquer outra coisa, tais índices indicam que a McLaren fez um carro rápido e, tão importante quanto, finalmente conseguiu treinar bastante, ao contrário do que aconteceu no ano passado: o time de Woking foi o sexto no quesito quilometragem (873 voltas) e seus dois pilotos ficaram entre os 10 mais rápidos. Em outras palavras, deverão lutar para largar na primeira metade do grid, junto com a Renault, Toro Rosso e as já citadas Ferrari e Mercedes. Na quarta-feira da semana passada Sainz Jr foi o piloto mais rápido (1’17”144, o melhor tempo absoluto com pneus de composto C4); nesse dia ele e Robert Kubica (Williams) foram os únicos a chegar à marca de 130 voltas percorridas. Na quinta-feira Norris repetiu o desempenho de Sainz Jr e foi o mais rápido do dia (1’17”144), igualmente com o composto C4, o que corrobora o progresso da equipe. No cômputo geral o espanhol (1’16”913) foi mais rápido que o inglês (1’17”084)

A Renault igualmente progrediu tanto em quilometragem percorridas (961 voltas, terceiro melhor índice), e possibilitou a seus pilotos treinarem todos os dias, primazia só igualada pela Mercedes. Nico Hulkenberg (5o, 1’16”843) mostrou-se sistematicamente mais rápido que Daniel Ricciardo (12o, 1’17”114).  No quesito consistência de resultados, o alemão obteve 7,25 e o australiano 7,63.

“O principal objetivo desse teste era avaliar algumas peças a fundo; algumas saíram melhores que outras. Nico e Daniel repartiram essa carga de trabalho e o entrosamento fábrica-circuito foi produtivo. O desempenho do nosso motor correspondeu à nossa expectativa e o conceito do nosso carro mostrou-se bom. Temos uma boa base e estamos otimistas para manter esse ritmo de melhora.”

Grande surpresa dessas duas semanas foi o desempenho da Toro Rosso, mais consistente que o de sua irmã maior e mais poderosa, a Red Bull. A consistência de Alexander Albon (6o, 1’16”882) e de Daniil Kvyat (7o, 1’16”898) permitiu que a equipe de Faenza registrasse a quarta maior quilometragem e bons tempos com um piloto que retorna à categoria após um ano sem competir e outro que estreia na categoria. Filho de pai inglês e mãe tailandesa, Albon surpreendeu pelo ritmo constante e levou a melhor na comparação direta com Daniil Kvyat, piloto reconhecidamente rápido mas ainda marcado pela inconstância.

Como a Toro Rosso tem um bom histórico para desenvolver novos talentos, Alexander poderá ser a melhor novidade de 2019. Quanto ao casamento do chassi STR 14 com o motor Honda RA619H, tudo indica tratar-se de um conjunto equilibrado, resultado do uso de boa quantidade de soluções do chassi RB15 e do progresso obtido pelos japoneses.

Resultados de Barcelona
Posição/Número/Piloto/Equipe/Tempo/total de voltas/Pneu/Dia mais rápido
1) 5/ Sebastian Vettel / Ferrari / 1'16"221 / 534 / C5 /8
2) 44 / Lewis Hamilton / Mercedes / 1'16"224 /638 / C5 / 8
3) 16 / Charles Leclerc / Ferrari / 1'16"231 / 463 / C5 / 7
4) 77 / Valtteri Bottas/ Mercedes / 1'16"561/ 551 / C5 / 8
5) 27 / Nico Hülkenberg / Renault / 1'16"843 / 509 / C5 / 8
6) 23 / Alexander Albon / Toro Rosso / 1'16"882 / 489 / C5 / 7
7) 26/ Daniil Kvyat / Toro Rosso / 1'16"898 / 446 / C5 / 8
8) 55/ Carlos Sainz Jr. / McLaren / 1'16"913 / 473 / C5 / 8
9) 8 / Romain Grosjean / Haas / 1'17"076 / 407 / C5 / 8
10) 4 / Lando Norris / McLaren / 1'17"084 / 400 / C5 / 7
11) 10/ Pierre Gasly/ Red Bull / 1'17"091 / 439 / C5 / 7
12) 3/ Daniel Ricciardo / Renault / 1'17"114/ 452 / C5 / 8
13) 7 /Kimi Räikkönen / Alfa Romeo / 1'17"239 / 497 / C5 / 8
14) 18/ Lance Stroll / Racing Point1'17"556 / 336/ C5 / 7
15) 20/ Kevin Magnussen / Haas / 1'17"565 / 403 / C5 / 8
16) 99/ Antonio Giovinazzi / Alfa Romeo / 1'17"639 / 425 / C5 / 7
17) 33/ Max Verstappen / Red Bull / 1'17"709 / 394 / C3 / 8
18) 11/ Sergio Pérez / Racing Point/ 1'17"791 / 289 / C5 / 8
19) 63 / George Russell / Williams / 1'18"130 / 299/ C5 /7
20) 88/ Robert Kubica / Williams / 1'18"993 / 268 / C5 / 8
21) 51/ Pietro Fittipaldi / Haas / 1'19"249 / 61 / C4 / 3

Dias de treino:
1 – 19/2; 2 – 20/2; 3 – 21/2; 3 – 22/2 4 – 26/2;
5 – 26/2; 6 – 27/2; 7 – 29/2; 8 – 1/3

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Wagner Gonzalez em Conversa de pista

Faltando 30 dias para o lançamento dos carros 2018 começam a surgir detalhes dos monopostos que ocuparão o grid da temporada que começa dia 23 de março, quando acontece o GP da Austrália, em Melbourne. 

Antes disso, acontecem duas sessões de quatro dias de treinos no autódromo de Barcelona, na Espanha, ocasião onde novidades técnicas dividirão com pilotos recém-chegados e aqueles que mudaram de equipe os temas das notas geradas em oito dias de ensaios livres. O início dos testes de pré-temporada está marcado para o dia 26 de fevereiro.

As alterações mais profundas são aquelas que envolvem a McLaren, a Toro Rosso e, em menos escala, a Sauber: nas demais praticamente aconteceu um processo de evolução onde o fornecedor de motor não foi alterado. Nas três citadas houve uma inversão de provedores em duas delas: o time inglês passa a usar motor Renault e o italiano recebe o Honda. Na casa suíça menção para o maior envolvimento italiano graças à chegada da Alfa Romeo, que aporta patrocínio e algum capital técnico, elementos que podem crescer para 2019 se o casamento der bons frutos.

Os atuais motores da F-1 incorporam recuperadores térmicos de energia cinética (MGU-K) e cinética (MGU-H) e turbo-alimentador, recursos que geram grande quantidade de calor e uma fonte de vibração considerável. É exatamente na disposição desseses elementos que reside a grande diferença entre os projetos francês e japonês, como Tim Goss, diretor técnico da McLaren, explicou ao site Chequered Flag:

“Podemos dizer que os motores da Mercedes e da Honda têm arquitetura semelhante: compressor instalado à frente do bloco, o recuperador de energia térmica (MGU-H) no centro, e mais atrás a turbina. Nos motores Renault e Ferrari o compressor está atrás do bloco, seguido pelo MGU-H e, depois, pela turbina.”

Além da óbvia influência na distribuição de massas, cada proposta implica em diferentes situações para a circulação do ar quente dentro da carenagem e nas estruturas do chassi e caixa de câmbio. Segundo Goss, “cada uma das soluções acima descritas tem seus prós e contras”. 

No caso do novo McLaren, as consequências foram mais agressivas na instalação do tanque de combustível, na caixa de câmbio, na suspensão traseira e, obviamente, no sistema de refrigeração. O resultado é que o carro de 2018 deverá ter um entre-eixos mais curto, de acordo com Goss:

“A caixa da entrada de ar do motor Honda implicava em ocupar parte do espaço o tanque de combustível. Como o motor Renault pode ser instalado mais à frente e tem pontos de fixação mais simples acabamos ganhando alguma vantagem também na aerodinâmica em torno desse volume e na estrutura da suspensão traseira.”

A maneira como a Toro Rosso vai resolver isso é cercada de curiosidade, a começar pelas implicações no relacionamento entre as culturas italiana – a equipe herdou as instalações da saudosa Minardi -, e japonesa. 

Os funcionários do time de Faenza passaram boa parte do inverno europeu recebendo aulas de japonês e informações importantes sobre os costumes nipônicos, uma forma interessante de acelerar o processo de integração entre o construtor e o fabricante de motor. Desde que regressaram à F-1 nos anos 1980 os japoneses têm problemas de socialização por causa das dificuldades de se expressar em outras línguas, pelo caráter hierárquico de sua estrutura profissional e, principalmente, pela maneira (não raramente ríspida) como são tratados pelos europeus

Na parte técnica há um espaço importante a ser preenchido: o australiano Brendan Gilhome, aerodinamicista-chefe da Toro Rosso, não faz mais parte do time. Ainda não se tem notícia de quem ocupará seu lugar mas o inglês Ben Mallock, há anos na equipe e ex-Mercedes, é considerado o favorito para ocupar a vaga. De acordo com James Key, responsável pelo staff de 140 pessoas do escritório técnico da Toro Rosso instalado em Bicester, na Inglaterra, o projeto do STR13 não foi prejudicado e a construção do carro está dentro do cronograma.

Tal como aconteceu no ano passado, o novo carro (STR13) do time liderado por Franz Tost será apresentado em Barcelona, às vésperas do início dos treinos livres, no dia 25 de fevereiro, mesma data e local escolhido pela Force India para apresentar o VJ11. 

Outros lançamentos já confirmados são os do McLaren MCL33-Renault (dia 22, local a ser definido), Ferrari 669 (dia 22, internet e evento fechado em Maranello), Mercedes W09 (dia 22, em Silverstone) Comenta-se que a Renault poderia se antecipar a todas essas equipes para apresentar o RS18 no dia 20, possivelmente em Silverstone.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Wagner Gonzalez em Conversa de pista


Wagner Gonzalez
Quando o trote assusta o calouro

Marko obrigado a engolir orgulho

Red Bull faz segunda chamada

Chile mostra circuito da F-E

O austríaco Helmut Marko tem fama de ser tão sutil quanto um búfalo andando em uma loja de cristais. Não são poucos os sonhos que foram quebrados pela maneira pouco sutil com que ele trata dos interesses do programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull, one ocupa o posto de diretor, cargo de confiança que lhe foi dado pelo conterrâneo Dietrich Mateschitz, o bilionário proprietário da fábrica de energéticos. O brasileiro Sérgio Sette Câmara, que este ano disputa a F-2, é um dos que fez parte dessa academia mas que preferiu abdicar da “oportunidade”. Acredita-se que os nomes que vingam e chegam ao estrelato são obrigados, por contrato, a pagar uma porcentagem de seus salários quando alçam vôo e assinam com equipes concorrentes.

Apesar do grande número de jovens que estão incluídos na academia do touro que distribui asas, Marko foi obrigado engolir seu orgulho e autoritarismo para resolver um problema que ele não enxergou. Uma semana após colocar na geladeira o russo Daniil Kvyat para dar lugar a Pierre Gasly , Marko foi obrigado a chamar o russo de volta ao time de F-1. 

Tudo porque após muitos sinais de ter perdido a motivação em defender a Toro Rosso, o espanhol Carlos Sainz finalmente despediu-se da equipe no recente GP do Japão. Domingo que vem ele estréia pela equipe Renault no GP dos EUA, em Austin, Texas. Ele toma o lugar do inglês Jolyon Palmer que jamais mostrou competitividade semelhante à do alemão Nico Hulkenberg, primeiro piloto do time francês.

Marko havia dispensado Kvyat para dar lugar ao francês Pierre Gasly, nome já praticamente confirmado na equipe para 2018, quando o time usará motores Honda. Ocorre que o dirigente austríaco não contava com a exigência da fábrica japonesa em ver o francês alinhar na prova final da temporada japonesa de Super Fórmula, onde ele é o único representante da marca com chances de chegar ao título da categoria semelhante em performance à F-2 européia. Tal situação revelou que dentre os vários meninos da academia do touro vermelho não há ninguém em condição de disputar uma prova de F-1.

E foi assim que Brendon Hartley reapareceu no universo dos energéticos. Por enquanto, Hartley foi escalado para disputar apenas o GP dos EUA, mas o passo de Marko não deixa dúvidas que o o “kiwi” (como os neozelandeses são conhecidos no Reino Unido) poderá ser o novo carrasco de Kvyat, que no ano assado perdeu o posto de titular da Red Bull para o holandês max Verstappen. 

Currículo não falta ao piloto nascido em Palmerston North, principal cidade da ilha de Manawatu famosa por suas universidades: depois de dois testes para a Toro Rosso em 2009, ele enveredou por várias categorias e no ano passado venceu o Campeonato Mundial de Protótipos (WEC) e este ano triunfou em Le Mans. Se tudo conspira a seu favor, Daniil Kvyat parece cada vez mais perto de ser dispensado em definitivo: ainda que não haja não haja pilotos japoneses em condição de pedir a super-licença necessária para competir na F-1, uma boa atuação de Hartley em Austin poderá valer novas oportunidades neste ano e, se tudo der certo, render-lhe um contrato para disputar a temporada de F-1 de 2018.

Terra de nomes como Bruce McLaren, Chris Amon e Dennis Hulme, Hartley será o primeiro neo-zelandês a disputar um GP desde a passagem conturbada de Mike Thackwell pela categoria em 1980. Então com pouco mais de 19 anos ele chegou a alinhar par ao GP do Canadá de 1980 e escapou de um mútiplo acidente na largada que eliminou os dois titulares da equipe Tyrrell, Jean-Pierre Jarier e Derek Daly. Como Jarier era o primeiro piloto da equipe, Ken Tyrrell ordenou que Thackwell cedesse seu carro para o francês.   Uma nova tentativa fracassada de se classificar para o GP dos EUA, uma semana mais tarde, marcou o final de sua carreira na F-1.

A corrida de Austin pode definir o título da temporada: a combinação de vitória de Lewis Hamilton e Sebastian Vettel terminando em sexto lugar ou pior garante o quarto título do piloto inglês com três provas (Mexico, Brasil e Abu Dhabi) de antecipação.

Chile com carga total

Enquanto os chilenos já tem definido o lay-out do circuito que será usado na estréia do país no calendário da F_E, a categoria de carros elétricos, os organizadores da etapa de São Paulo pouco divulgaram sobre a corrida que marca a entrada do Brasil no universo dos carros elétricos de competição. O máximo que se sabe até agora é que a corrida acontecerá no circuito do Parque Anhembi, e adotará um circuito que utilizará boa parte semelhante ao que foi utilizado pela F-Indy.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Wagner Gonzalez - Conversa de pista - Na crista da Honda


Wagner Gonzalez
Acordo com Toro Rosso esperado a qualquer hora

Renault finalmente consegue Carlos Sainz

Alonso ainda é dúvida na McLaren


As verdades da F-1 são descobertas num movimento semelhante ao movimento das marés: formadas em alto mar, longe das vistas do público, delas emergem a espuma que embeleza a orla das praias. Esta teoria deverá ser comprovada nos próximos dias, quando uma longa e conturbada crise envolvendo Carlos Sainz Jr, Fernando Alonso, Honda, Jolyon Palmer, McLaren, Renault e Toro Rosso – além de outros que se afogaram pelo caminho – chegar ao fim e revelar a verdadeira crista dessa onda. Por enquanto ninguém confirma nada, mas do mesmo jeito que o mar não repete suas marcas quando quebra na areia, é certo que os elos que hoje unem essas partes em diferentes praias jamais serão vistos da mesma forma.
O cenário desta coluna tem dois núcleos principais. O primeiro é composto por Fernando Alonso, Honda e McLaren; o outro por Carlos Sainz Jr, Renault e Toro Rosso. Ligando um ao outro aparecem a FIA, a FOM e a Red Bull e tudo isso junto compõe um roteiro que pode ser digno de novela mexicana, de um filme noir sobre choque entre gerações ou de um thriller envolvendo investidores que atuam mercados mundo afora.

A novela mexicana tem tudo a ver com os caprichos de Fernando Alonso, piloto de habilidade irretocável quando desafiado a acelerar qualquer carro; seus genes latinos, porém,  geram conflitos em famílias mais tradicionais como as de culturas nipônica ou inglesa. 

Para explorar ao máximo seu potencial de promoção a McLaren não hesita em dar-lhe o melhor equipamento possível e garantir que seu status de primeiro piloto jamais seja ameaçado. Ao denunciar publicamente as deficiências da Honda, o espanhol provoca a ira do mais calmo habitante do arquipélago japonês. Ter conquistado dois títulos com a Renault não garante ao representante das Astúrias status de prima donna no futuro.

Nunca antes na história da humanidade os jovens ocuparam tanto destaque nos caminhos da fama e poder. Tal qual o efeito que a frase usada por um famoso político causa em brasileiros e brasileiras, a ideia de não assumir a chefia do conselho um punhado de meses após começar em um novo emprego causa arrepios e brotoejas à geração Y. Max Verstappen, Carlos Sainz, Daniil Kvyat, Lance Stroll e Estebán Ocón são alguns exemplos dessa movida no universo da F-1.

Apadrinhado por Helmut Marko, Max Emilian Verstappen pilotou um F-1 da equipe Toro Rosso pela primeira vez quando tinha 17 anos e 2 dias e no dia 15 de março de 2015 disputava seu primeiro GP ao lado de Carlos Sainz Vásquez de Castro. É dado como certo que nenhuma equipe inscreveu uma dupla mais jovem em toda a história da F-1. Mesmo sem títulos importantes, o holandês Verstappen tornou-se o piloto mais jovem a pontuar na F-1 (aos 17 anos e dois dias foi o colocado no sétimo no GP da Malásia de 2015) e cerca de um ano mais tarde surpreendeu novamente ao vencer o GP da Espanha de 2016.

O triunfo em Barcelona aconteceu quando Verstappen estreou pela equipe Red Bull aos 18 anos e 229 dias de vida, algo inédito na categoria. Praticamente três anos mais velho – Sainz nasceu no dia 1º de setembro de 1994 e Verstappen no dia 30 de setembro de 1997 -, não demorou muito para o espanhol externar sua decepcão de ter sido preterido na escolha do substituto de Daniil Kvyat, russo que perdeu seu posto na Red Bull após uma série de “excessos de arrojo”.

E assim nasceu a cizânia: desde então Sainz regularmente contesta as limitações que a vida em uma equipe pequeno-média impõe aos seus planos de carreira. Nem mesmo os energéticos que patrocinam sua causa deram-lhe asas suficientes para evitar o que ele considera um stoll, aquela situação em que o avião não consegue subir mais por falta de potência e perde velocidade e sustentação. As turbulências com seus superiores hierárquicos passaram a ser notadas entre os pousos e decolagens impostas pelo calendário da F-1. O ETA (hora prevista de chegada, na sigla em inglês) para romper seu contrato tornou-se uma questão de tempo, tempo cada vez mais curto.

O mercado espanhol, um dos que mais cresce este ano – em agosto subiu 13%, contra 7,2 do total europeu – é o quinto na escala de valores de vendas da Renault no velho continente, atrás da Alemanha, França, Inglaterra e Itália. Seus pilotos atuais são o alemão Nico Hulkenberg (responsável pelos 34 pontos marcados pela equipe nesta temporada) e o inglês Jolyon Palmer. A indisponibilidade de pilotos franceses ou italianos e as boas campanhas de 2016 (46 pontos) e 2017 (34 até agora) fazem de Sainz o substituto ideal para Palmer, que marcou seu único ponto na F-1 no GP da Malásia de 2016.

Entra em cena o destino da Toro Rosso, equipe que usa o motor Renault, tem Sainz sob contrato e nas mãos exibe o script de um filme que mostra o subterrâneo do mercado financeiro. Como a Honda não aceitou pagar o preço pedido por Helmut Marko e Franz Tost – os hoemns fortes do time -, e a Renault optou por ter a McLaren como terceira equipe, a solução foi encontrada incluiu negociar o passe de Sainz, supostamente por € 8 milhões. Outro tanto deverá vir em forma da possível adoção de um piloto japonês, “cortesia” feita à Honda para a vaga que muitos acreditam estar destinada a Pierre Gasly, francês que ainda cursa o vestibular para a F-1.

Os efeitos dessa negociação deverão ser vistos ao longo do tempo. Os apressadinhos já dão conta que Palmer pode ficar a pé antes do final da temporada, pois este ano a Renault quer terminar o Campeonato de Construtores em uma posição melhor que o oitavo lugar ocupado atualmente. Quem enxerga mais longe não duvida que no ano que vem a marca francesa terá maior espaço nas transmissões de TV e nos cartazes espalhados pelas pistas…

Enquanto isso sobra para a Honda, que amarga dois programas mal sucedidos: o fechamento de sua própria equipe no final de 2008 e três temporadas de insucessos com a McLaren, união prestes a ter um final infeliz. Mesmo assim, a persistência e determinação típica dos nipônicos formataram um novo programa com a Toro Rosso  e impediram que a Honda abaixasse sua crista.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Wagner Gonzalez em Conversa de Pista




Wagner Gonzalez

Onde tem fumaça

US$ 105 milhões seguram Vettel na Ferrari até 2020


Próximas duas semanas favorecem a Scuderia



Bottas firma o pé na Mercedes






Fazia tempo que Lewis Hamilton não enquadrava Sebastian Vettel com tanta autoridade quanto como fez domingo passado, em Monza. O inglês não se preocupou em fazer marcação máquina-a-máquina ou atacar pelos flancos: simplesmente não tomou conhecimento que acelerava da pista do adversário e via nas arquibancadas um tom de vermelho que não tinha nada a ver com as nuances dessa mesma cor que enfeitam seu capacete.

Muito pior do que isso foi o alemão ter vivido essa experiência e voltar para o vestiário três pontos atrás do adversário na tabela de pontos do Campeonato Mundial, algo inédito nesta temporada. Nas treze corridas anteriores a melhor situação que Hamilton viveu foi o intervalo entre os GPs da China e do Bahrein, quando os dois estavam empatados com 43 pontos; em Mônaco a vantagem de Sebastian sobre Lewis chegou a 25 pontos.

Como desgraça pouca é bobagem, tudo isso aconteceu em um autódromo que é a verdadeira basílica do automobilismo mundial e situado a meras duas horas de carro de Maranello tempo pouco maior que a 1h15 que Hamiton levou para cumprir as 53 voltas da corrida. 

Para dar um tempero mais marcante, a perda da liderança do campeonato mundial de pilotos aconteceu sob as vistas do presidente do clube (Sergio Marchionne) e do padrinho da equipe (Piero Lardi Ferrari), os mesmos cartolas que dias antes haviam renovado o contrato com o artilheiro da equipe, supostamente uma combinação de US$ 35 milhões anuais no triênio 2018-2020, manter Kimi Räikkönen mais um ano na equipe e a condição indiscutível de primeiro piloto.

Estivéssemos falando de futebol e técnico da casa já estaria trilhando o caminho da roça. Só que estamos falando de alguém com costas quentes: o “professor” Maurizio Arrivabene durante muitos anos foi quem comandou o orçamento que a Philip Morris dedica ao automobilismo. 

Durante esse reinado a multinacional e a Ferrari entraram num acordo que permitiu manter o patrocínio vigente mesmo sem exibir o nome Marlboro, algo que é proibido por lei, bastando para isso que o logotipo da Scuderia Ferrari tenha um esquema gráfico que remeta à embalagem do cigarro. Esse acordo, que foi renovado por mais três anos, ontem, é estimado em US$ 100 milhões anuais segundo a publicação SportsPro, especializada em patrocínios esportivos.

Não há dúvidas que vale a pena: a Ferrari é uma das marcas mais valiosas do mundo e agrega valor a qualquer coisa. O fato da marca italiana praticamente investir praticamente nenhum euro, dólar ou yuan em publicidade para vender seus carros de rua ajuda a entender a saúde do tal “valor intangível” exibido pela Scuderia. 

Se você está achando este parágrafo marqueteiro demais, relaxe: Bernie Ecclestone sempre fez questão de pagar um valor na casa de nove dígitos, em moeda forte, para adoçar a boca dos italianos. Quem conhece um pouco sobre Ecclestone sabe muito bem que ele nunca foi dado a rasgar dinheiro ou dar esmolas.

Em linhas gerais a Mercedes e, com menor intensidade a Red Bull são as únicas equipes que atualmente conseguem resultados financeiros saudáveis e comparáveis aos da Ferrari na F-1. Por isso mesmo, apesar das cíclicas crises que assolam a fortaleza de Maranello ainda é cedo para dizer que o título deste ano será o quarto de Hamilton. Os circuitos que vem à frente, com exceção do Japão, não exibem os longos trechos de aceleração máxima que caracterizam Spa e Monza, palco das últimas duas vitórias consecutivas de Lewis Hamilton, o que deve diminuir a desvantagem mostrada na pista dos arredores de Milão.

Como sugere o título e lembra o dito popular, não é só na Ferrari que as novidades para 2018 estão acontecendo, ainda que na base do conta-gotas e vazamentos seletivos. Em conversa com a imprensa italiana Niki Lauda deixou claro que a renovação do contrato de Valtteri Bottas para 2018 está definida. No campo da McLaren ganhou corpo a proposta de trocar a Honda pela Renault a partir de 2018; o maior entrave para concretizar esse acordo é o desejo comum de toda o planeta F-1 de não perder o fabricante japonês.

A Toro Rosso, a equipe que perderia o motor francês, no entanto, não está muito animada em facilitar a conclusão do negócio, o que não chega a surpreender: ter a McLaren usando o mesmo motor que a Red Bull não interessa ao reino dos energéticos. A volta de Robert Kubica, provavelmente na Renault, o anúncio de Charles Leclerc na Sauber - substituindo Pascal Wehrlein -, e o destino dos espanhois Fernando Alonso e Carlos Sainz podem ser as manchetes dos próximos 10 dias.


Nesse intervalo a F-1 vai revisar seus carros e enviar seu circo para as provas de Cingapura (17/9), Malásia (1/10) e Japão (8/10). Para botar lenha nessa fogueira a conta do aplicativo Twitter da Renault Sport exibia nesta madrugada, pelo horário de Brasília, uma sugestiva foto: Fernando Alonso vestindo um macação da equipe nos tempos em que dividiu a equipe francesa com Giancarlo Fisichella...

terça-feira, 18 de abril de 2017

Wagner Gonzalez em Conversa de pista

Ferrari comanda o show após 3 atos

 Red Bull promete carro redesenhado para GP da Espanha
Force India é a terceira equipe mais regular

Massa leva Williams sozinho

Após três atos de uma história que se prolongará por mais 17, três equipes e seis pilotos já sobressaem pela regularidade com que marcaram presença nas 30 posições pontuáveis que aconteceram até agora. Entre os grandes, a Ferrari mostra o caminho à Mercedes – é líder tanto com Pilotos quanto entre os Construtores -, enquanto a mediana Force India brilha no meio do pelotão graças ao bom trabalho de Sérgio Pérez e do novato Estebán Ocón. Os dois pontuaram na Austrália, China e Bahrein, algo que somente Sebastian Vettel, Lewis Hamilton, Valtteri Bottas e Kimi Räikkönen (os quatro primeiros na tabela de pontos) conseguiram. Se sobra espaço para mais alguém o nome a ocupar a vaga é o alemão Pascal Wehrlein, que estreou na temporada obtendo um inesperado 11º no circuito de Sakhir. O resultado do piloto da Sauber ganha destaque por ele ter sido o único a fazer uma única troca de pneus entre os 4 que se classificaram na terceira etapa do ano.

Ainda que algumas pequenas alterações e aerodinâmica tenham sido notadas no GP do Bahrein espera-se um número maior de novidades para as próximas etapas na Rússia e na Espanha, particularmente na última. Christian Horner, líder da Red Bull, informou ontem que um problema de calibragem nos sensores do túnel de vento usado por sua equipe afetou o projeto do RB13. Por causa disso o desempenho de Daniel Ricciardo e Max Verstappen até agora ficou distante dos pilotos da Ferrari e da Mercedes. As alterações serão vistas no circuito de Barcelona, onde a F-1 se apresenta dia 14 de maio.

Adrian Newey -, tanto o australiano (terceiro no grid e quarto na corrida) quanto Verstappen (que viveu um fim de semana infeliz dentro e fora da pista) andaram mais próximos dos carros alemães e italianos. Verstappen viveu um fim de semana para esquecer: no sábado deu uma declaração infeliz sobre os brasileiros, da qual se retratou ontem, na corrida bateu quando seu carro teve problemas de freios e no domingo viu seu companheiro de equipe terminar em quarto.

No balanço parcial da temporada não há dúvidas que a Ferrari foi melhor que a Mercedes, ainda que o quarto posto de Kimi Räikkönen no Mundial de Pilotos contraste com a liderança do seu companheiro de equipe Sebastian Vettel. A continuar nesse patamar de desempenho a lista de substitutos do finlandês para 2018 não tardará a aparecer. Se é praticamente impensável que Räikkönen assuma um papel de segundo piloto antes do GP de Cingapura, o maior adversário dos italianos pode resolver o assunto muito antes disso.

A julgar pelo que aconteceu no GP do Bahrein o período de lua de mel entre Lewis Hamilton e Valtteri Bottas está próximo do fim. Não bastasse a expressão do finlandês no terceiro degrau do pódio os acontecimentos que levaram o autor da pole position a perder duas posições ao final da corrida não amenizam esse quadro. No grid de largada o compressor de ar utilizado para garantir a calibragem correta dos pneus teve problemas e Bottas alinhou com pneus que superaqueceram e perderam aderência; com seu segundo jogo de pneus o problema se repetiu.
Já com o terceiro, Bottas mantinha um ritmo mais forte que Lewis Hamilton, que instalou pneus novos na 40ª volta, dez voltas mais tarde que o finlandês. Nesse momento, Bottas era cerca de um segundo por volta mais rápido que o inglês. Coincidentemente, após o pit stop de Hamilton os tempos por volta do carro 77 caíram cerca de dois segundos e os do carro 44 melhoraram em igual proporção; dessa forma em apenas cinco voltas o inglês descontou cerca de 10 segundos e passou a ocupar a vice-liderança da prova. Para quem estava fora do box da Mercedes ficou a clara impressão de que ordem dali emanadas  definiram a situação.


Vettel lidera a temporada mas o problema na casa italiana é semelhante mas parece existir uma situação mais clara:  e se Bottas marcou 12,7 pontos por corrida, Räikkönen mostra a média de 11,3 e não demonstra estar à vontade com o carro de 2017. A integração do finlandês mais jovem com seu novo time deve ajudar a melhorar a média nas próximas corridas.

Num planeta à parte, a equipe Force India vai fazendo uma temporada na base de comer pelas beiradas e, novamente, supera equipes com mais recursos técnicos e financeiros, particularmente Williams e Renault. O espírito de equipe no time ainda liderado por Vijay Mallya compensa essas e outras desvantagens, como um carro entre os mais pesados do grid e um piloto, Estebán Ocón, que ainda não completou uma temporada inteira na F-1 e outro, Sérgio Pérez, conhecido por sua velocidade. Apesar da pouca experiência, o franco-catalão terminou as três corridas em décimo lugar e deu mostras de sua capacidade ao garantir seus resultados com ultrapassagens e disputas leais e arrojadas.
  
Tal cenário valoriza indiretamente o desempenho de Felipe Massa, responsável pelos 16 pontos conquistados pela Williams até agora, um a menos que a Force India. Até agora o canadense Lance Stroll não completou nenhuma prova e, mesmo que no Bahrein seu abandono tenha sido consequência de uma atitude condenável de Carlos Sainz Jr, o horizonte de 2017 para o pessoal de Grove é terminar o ano atrás de seus colegas de Silverstone.

Toro Rosso, Haas e Renault seguem nessa ordem na tabela de pontos. A primeira parece envolta em uma fase menos produtiva dos seus pilotos – o espanhol Sainz vem de duas corridas com atuação abaixo do seu normal -, e se ele e Daniil Kvyat continuarem nesse ritmo vagas se abrirão na F-1 2018. Ainda sofrendo problemas de freios no carro de Romain Grosjean e de regularidade por parte de Magnussen, a Haas vem de dois oitavos lugares consecutivos e tem dado ao franco-suíço um carro rápido o suficiente para ele ter chegado ao Q3 – quando são definidos os dez primeiros lugares do grid de largada – em duas ocasiões.

Mescla dessa situação com a vivida pela Williams, a Renault marcou no circuito de Sakhir seus primeiros pontos da temporada, graças a Nico Hulkenberg. Se o chassi RS17 parece melhorar sensivelmente, o mesmo não acontece com o inglês Jolyon Palmer: suas performances erráticas não contribuem para que ele consolide seu espaço na categoria: mesmo largando em surpreendente décimo lugar terminou a prova atrás de Pascal Werhlein e Daniil Kvyat.

Após duas etapas em que optou por não disputar para recuperar sua condição física o alemão Pascal Wehrlein finalmente estreou na equipe Sauber e marcou presença. O décimo-primeiro lugar conquistado no final de semana é uma contribuição importante ao time suíço, que pelo menos temporariamente está à frente da McLaren no Mundial de Construtores, ainda que ambas estejam empatadas com zero ponto. Pelo andar da carruagem – nenhuma menção indelicada, por favor -, a Sauber tem boas chances de terminar o ano como penúltima colocada. O lado irônico é que a Honda poderá ser a sua fornecedora de motores no ano que vem.

A F-1 permanece no Bahrein por mais dois dias para testar protótipos dos pneus que serão usados no ano que vem, sessão de treinos na qual algumas equipes darão oportunidade de teste para vários novatos. O resultado do GP e a classificação consolidada do campeonato você encontra neste link.

Wagner Gonzalez